In Materiae Veritas

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É mais fácil ler uma pedra ou ler palavras? Em que língua fala hoje o Douro, e para quem? Estas e outras interrogações serviram de mote para a criação deste projeto a dois, que junta uma escultora do Barreiro com um jovem escritor do Porto. A língua junta-se ao fruto, o pé crava no solo, antecipando as vontades que se suspeita que o Homem sempre teve. Desde a Antiguidade Clássica, com a representação de Baco na Grécia e de Dionísio em Roma, que o vinho encarnou um papel principal na socialização entre homens e culturas. Com a expressão “In Vino Veritas”, o álcool sempre assumiu um certo significado de clarividência, levando o Homem a definir melhor quais os seus pensamentos e desejos ocultos. Esta procura pela exactidão da realidade tem uma relação muito próxima com o acto de criação artística. A depuração do objecto pede por vezes uma capacidade de sintetização que só com abstracção a conseguimos alcançar. Ao definir o conceito de beleza, Platão descreve-o como “o esplendor da verdade”. A “verdade”, como meta final do trabalho artístico, é algo bastante presente nos trabalhos de ambos os autores expostos. Para ser verdadeira, tem a arte o “doce paradoxo” de nunca poder ser feita por encomenda, mas, ao mesmo tempo, dificilmente existir sem encomendas que a patrocinem. Se não for fiel ao seu autor, de nada servirá. Porém, mesmo com o seu valor intrínseco, se não tiver público para a interpretar dificilmente mudará o mundo. No trabalho apresentado, a “terra” (matéria=materiae) tem um papel fundamental. Numa sociedade cada vez mais desligada do planeta, do toque e do nosso lado animal, urge o ditame para a verdade que a terra nos transmite. Esconde-se por entre rochas, areias, pó de cascalho, plantas, raízes e detritos que são pelo ser humano compactados. É a história estratificada, estática e silenciosa. Uma linha do tempo que foi esquecida, mas que hoje constitui aquilo que vemos, tocamos e sentimos. Compacta-se a história e toda a sua composição. Cada estrato simboliza um passado que foi construído e modificado pelo Homem. Até então, a Terra já existia bem antes de nós, pura e intacta. Mais do que aquilo que pisamos todos os dias, é onde nos semeamos quando julgamos partir. É a semente da vida. Afinal, quando foi a última vez que os nossos dedos dos pés tocaram em terra? Que se descalcem os preconceitos, e que nos lembremos de quem éramos antes de sermos o que somos. Compacta-se a história e toda a sua composição. Cada estrato simboliza um passado que foi construído e modificado pelo Homem. Até então, a Terra já existia bem antes de nós, pura e intacta. Mais do que aquilo que pisamos todos os dias, é onde nos semeamos quando julgamos partir. É a semente da vida. Afinal, quando foi a última vez que os nossos dedos dos pés tocaram em terra? Que se descalcem os preconceitos, e que nos lembremos de quem éramos antes de sermos o que somos.

Parceria com: Pedro Stattmiller, poeta e arquiteto. Materiais: Terra, cimento e madeira. Dimensões: 60 cm x 40 cm x 120 cm. Peso: 25kg cada. Ano: 2019.

© 2021, Jessica Burrinha